Novas Regras para a Segurança Cibernética no Setor Financeiro

Julho 2026
Nesta edição, exploramos esse novo momento sob diversas perspectivas. Falaremos nos desafios jurídicos da identidade digital, na proteção de dados em um cenário de autenticações cada vez mais sofisticadas, nos impactos da IA sobre a produção de provas, nos reflexos para o sistema financeiro, na proteção de marcas, nos riscos para empresas e nas tecnologias que tentam reconstruir a confiança no ambiente digital.

Durante muito tempo, bastava ver para acreditar. Uma fotografia servia como prova; uma voz identificava uma pessoa; um documento assinado era garantia de autenticidade. Hoje, nada disso é certeza.
O avanço da inteligência artificial tornou mais fácil, rápido e barato produzir imagens, vozes, documentos e vídeos impossíveis de distinguir dos originais. Ao mesmo tempo, as fraudes digitais, perfis e conteúdos falsos multiplicam situações em que verdade e não verdade se confundem. A consequência é que vivemos uma verdadeira crise de confiança.
Essa transformação já alcança empresas, governos e tribunais. É preciso rever processos de autenticação, fortalecer mecanismos de verificação e desenvolver novas formas de provar a legitimidade das informações. A confiança, que antes era presumida, passa a depender cada vez mais de evidências.
Nesta edição, exploramos esse novo momento sob diversas perspectivas. Falaremos sobre os desafios jurídicos da identidade digital, a proteção de dados em um cenário de autenticações cada vez mais sofisticadas, os impactos da inteligência artificial sobre a produção de provas, os reflexos para o sistema financeiro, a proteção de marcas, os riscos para empresas e as tecnologias que tentam reconstruir a confiança no ambiente digital.
O Olhar Opice segue como espaço de análise crítica sobre temas que atravessam tecnologia, sociedade e negócios, sempre à luz do Direito Digital e das soluções que desenvolvemos no Opice Blum. Nosso compromisso é ampliar repertório e mostrar como o jurídico pode contribuir para um ambiente digital mais seguro, ético e sustentável.
A popularização de deepfakes de voz e imagem tornou mais frágil a validação de identidade baseada apenas em aparência, voz ou familiaridade. Em ambientes corporativos, esse risco alcança aprovações financeiras, alterações cadastrais, redefinição de credenciais e solicitações urgentes atribuídas a executivos, colegas ou fornecedores.
A detecção técnica de deepfakes ajuda, mas não deve ser tratada como prova isolada. A qualidade das falsificações evolui rapidamente, enquanto ferramentas de detecção podem gerar falsos positivos e falsos negativos. A resposta mais segura está na combinação de sinais, como origem da chamada, dispositivo utilizado, comportamento incomum, contexto da solicitação e divergências em padrões de linguagem ou rotina.
A validação de identidade precisa incorporar confirmação por canal independente, autenticação multifator, segregação de funções e limites de aprovação proporcionais ao risco. Solicitações fora do padrão, especialmente com pressão por urgência ou sigilo, devem passar por verificação adicional antes da execução.
As ameaças internas também podem explorar esse cenário. Colaboradores mal-intencionados, contas comprometidas ou terceiros com conhecimento da operação podem usar deepfakes para contornar controles e atribuir ordens falsas a pessoas com autoridade. Por isso, a segurança depende menos de reconhecer rostos e vozes e mais de processos verificáveis, revisão de exceções e monitoramento de comportamentos incompatíveis com o histórico esperado.
Esta coluna é um espaço para olhar além do jurídico e explorar as fraudes digitais sob uma perspectiva social e cultural. Nela, o foco está nos comportamentos, hábitos e transformações que a tecnologia provoca em nosso jeito de pensar.
Você curte o som de The Velvet Sundown?
The Velvet Sundown já é um fenômeno. Com um som que lembra o rock psicodélico dos anos 1970, a banda viralizou nas plataformas de streaming e já conta com milhões de reproduções. O visual charmosamente vintage dos quatro integrantes contribuiu para aumentar a curiosidade: quem são eles? Onde vivem? Onde começaram? Vai ter turnê?
Fato é que ninguém sabe quem são essas pessoas e há indícios de que elas simplesmente... não existam.
A autoria do projeto permanece cercada de dúvidas, mas tudo indica que um grupo de músicos, programadores e engenheiros de som se uniu para criar, com IA, as músicas, as imagens de divulgação e até a identidade da banda. Pode ser um experimento musical? Sim, mas The Velvet Sundown virou um experimento sobre confiança.
Aí, você pensa: é justo que um projeto criado por IA dispute nossos ouvidos com criações de artistas humanos? Se a música é boa, importa saber quem a criou? Quem deve receber o dinheiro pelos milhões de plays; as bandas que inspiraram o projeto, os programadores que o criaram ou o Suno AI?
Quando já não conseguimos distinguir uma banda real de uma artificial, o que significa autenticidade? Fica a reflexão.
Ouça Dust on the Wind, do The Velvet Sundown que, no fechamento desta edição, contava com quase 5 milhões de plays só no Spotify.
Esta coluna é um espaço dedicado a discutir tendências que já começam a impactar o Direito, os negócios e a sociedade. Nesta edição, você lê como a IA está alterando a natureza das fraudes e por que a capacidade de detectar comportamentos suspeitos pode se tornar tão importante quanto a de impedir ataques.
Um dos recados mais fortes do SXSW 2026 foi a centralidade humana. No universo das fraudes digitais, essa perspectiva se confirma, e o comportamento humano desponta como um dos principais vetores de risco.
A fraude do futuro, que já chegou, explora um humano ainda mais vulnerável, em razão do momento de adaptação que vivemos. Estamos diante de um novo patamar de confiança, atenção, urgência, medo, distração, pertencimento e até solidão.
Ao utilizarmos sistemas de inteligência artificial de forma massiva e pouco intencional, temos deixado o pensamento crítico em segundo plano. Esse cenário se torna ainda mais sensível com o avanço da Emotion AI1, em que amizade, romance, terapia e até orientação espiritual começam a migrar do humano para a máquina. Se, por um lado, ganhamos uma IA mais empática, por outro, colocamos pessoas com menor capacidade crítica diante de sistemas cujas reações se assemelham cada vez mais às suas.
Para quem trabalha com antifraude, a mensagem é clara: o futuro da fraude será cada vez mais neurocomportamental, marcado por identidades sintéticas, deepfakes, manipulação emocional automatizada e ataques hiperpersonalizados. Continua sendo essencial proteger sistemas, mas cuidar das pessoas talvez se torne, a partir de agora, uma das medidas mais relevantes de prevenção a fraudes.
O convite, portanto, é para que não assistamos passivamente a esse novo cenário, mas retomemos, com intencionalidade e espírito crítico, o controle sobre como decidimos, nos relacionamos e sobre quem ou o quê estamos depositando parcela relevante da nossa confiança.
Se você, como nós, aprecia o tema, não deixe de seguir Rana el Kaliouby, cientista da computação egípcia e uma das principais referências mundiais em IA Centrada no Ser Humano.
Artigo escrito por Ana Rita Bibá Gomes de Almeida.
Filmes e séries
O Show de Truman
Um clássico de 1998, que segue contemporâneo. Muito antes das redes sociais e da IA, o filme já questionava o que acontece quando toda a realidade de uma pessoa é construída artificialmente.
Disponível na Amazon Prime.
Black Mirror | ep. Be Right Back
Este é o primeiro episódio da segunda temporada e discute a recriação digital de uma pessoa morta a partir de seus dados. É de arrepiar.
Disponível na Netflix.
Livros
A próxima onda, de Mustafa Suleyman
Lançado em 2023, é um dos livros mais importantes dos últimos anos sobre IA. O autor discute porque tecnologias capazes de criar conteúdo indistinguível do real desafiam governos, empresas e sistemas jurídicos.
Disponível na Amazon.
A Morte da Verdade, de Michiko Kakutani
A autora, crítica literária do The New York Times por quase quatro décadas e vencedora do Prêmio Pulitzer, analisa como desinformação, relativização dos fatos e manipulação digital corroem a confiança pública. Embora anteceda a explosão da IA generativa, continua extremamente atual.
Disponível na Amazon.
Podcasts
Your Undivided Attention
Um podcast excelente para discutir como a IA, os algoritmos e as plataformas alteram nossa percepção da realidade e da confiança. O episódio Have We Trained AI to Lie to Itself - and to Us? conversa diretamente com o tema desta edição.
Ouça o episódio no Spotify.